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Um abraço.

Newton

Leia o primeiro capítulo

Publicado: 26/08/2011 em Uncategorized

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Nove horas. Hora do antidepressivo que o médico receitou. De doze em doze horas, doses de normalidade prum anormal. “Se não melhorar, volta aqui, mesmo que não seja o seu dia”, ele disse. Nunca imaginei que teria que tomar remédio pra ficar normal e pra conseguir escrever, tamanha a quantidade de ideias que zaranzam pela minha cabeça. Acontece que, pela desordem de pensamentos, penso em tudo ao mesmo tempo e o tempo se perde. Quando me dou conta, parece que não deu tempo pra nada. Tento, todas as vezes, a mesma coisa, vezes sem conta. E não há como o trabalho evoluir. Não bastassem minhas ideias desarranjadas, tem a gritaria toda do vizinho, o latido insistente do cachorro da vizinha. E a mulher que grita três, quatro vezes por dia, horário já marcado. De manhã, às seis em ponto. Na hora do almoço, perto de uma hora. Depois, às quatro da tarde. Finalmente, por volta das onze da noite, ela volta a misturar os gritos com os gemidos. Parece uma orquestra, a voz. Já reparei. Entre gritos e gemidos, ela sequer desafina. Curioso. Mais curioso ainda é como a voz na hora do sexo muda a pessoa. Às vezes, parece menina. Pelo tanto que dá, parece jovem. Pelos gemidos, parece meia idade. Às quatro da tarde, parece uma puta. Nesse horário, gemendo e gritando desse jeito, pro marido é que não tá dando, certeza. Poucos são os maridos que estão às quatro da tarde em casa comendo a mulher. Só se for mulher de outro. Sou uma das exceções. Sempre tou em casa porque trabalho em casa. Por isso mesmo, vivo perturbado com a bagunça. Quem consegue escrever quéssa zoeira? Só com remédio. E agora já perdi quinze minutos do horário de tomar a drágea. Água. Goles grandes. Aproveito e mato a sede enquanto vou matando a depressão. Engulo o comprimido e imagino que ele invade meu corpo feito uma bala, calibre trinta e oito. Tiro certeiro nesse estágio demente, nesse olhar caído, na expressão triste. Um pouquinho mais de tempo e, então, estarei pronto pra arranjar as ideias. Dispô-las em frases, capítulos, sonetos, o que for. Enquanto o bem-estar não chega, vou pra internet. Surfo entre um site e outro. Vejo pornografias. Leio notícias. Entro nos chats, chatos. Invento mentiras. Viro menino, menina, garanhão, travesti. “E ae, tc de onde? Naum quer tc? Falow”. Comé que alguém consegue se comunicar com um linguajar desses? Demorei pra entender. Mas a gente aprende, acostuma. Só não consigo me acostumar com o barulho todo na hora do trabalho. Quando não são os vizinhos, o cachorro e a mulher, são os carros na rua, o trânsito infernal que faz todo mundo mandar outros pro inferno. Farol que quebra. Farol que fecha. Farol que abre. Buzina. Ônibus entupido, as pessoas com suas vidas lotadas de problemas, acontecimentos, tristezas, alegrias, sabe-se lá. Às vezes fico na janela observando, imaginando o que cada rosto é. E são muitos. Tem um homem parado na esquina há um tempão, será que é trombadinha? A mulher gorda lambendo o sorvete será que ela faz assim com o namorado, ou será que ela tem uma penca de filhos, marido, sogra, cachorro, gato, todos morando na mesma casa e, por isso, meio que invadida pelo desgosto, ela não sabe chupar mais nada senão sorvete? E aquela moça, pernas compridas, meias de seda, salto alto, vai pra onde a essa hora? E aquele ali, parece vagabundo. É, podemos ficar horas, dias e noites observando as vidas e imaginando o que elas são. Agora, por exemplo, onze da noite, a vida é só escuridão. Um mar de escuridão. Da minha janela, vejo uma praça. Tem de tudo: garotos programa, traficantes, gigolôs. Sei que não é comum essa gente se misturar assim, mas na praça, sob o meu olhar, se misturam. Parece um shopping de vadiagem. Na vitrine, mulheres sem roupa – 50% off. Liquidação para liquidar a noite, ou a vida, sabe-se lá. Vendo-os, homens e mulheres na praça à espera de fregueses, imagino como é ser de todos. No fim, não dou bola porque eles, no fundo, não são de ninguém. Tento, de novo, me concentrar no trabalho. Começo a me sentir melhor por conta da depressão que escoa aos poucos e me esvazia, alivia. Mas não era assim quando iniciei o tratamento. Melhorar esse pouco da depressão só aconteceu após duas semanas. Entre a depressão e esses lampejos de alívio, penso na história que martela a minha cabeça toda a noite antes de dormir. Tento me concentrar no começo, meio, fim. Desisto. Não cheguei no meio, o fim ainda não existe. Com sorte, o começo vai se transformar nalgumas boas linhas, dignas de serem lidas. Só me demoro um pouco pra iniciar a história porque o cachorro começa a latir. Depois vários. O som dos bichos se propaga, agiganta-se nas ruas, no prédio, no meu apartamento, neste meu escritório. Fecho a janela. Encosto a porta. Quando os cães param, o cachorro do adolescente do oitavo andar coloca Rolling Stones no último volume. Quase meia-noite. Não pode. Além do mais, daqui a pouco a mulher vai querer trepar. Minhas ideias serão interrompidas pelos gritos e gemidos dos gozos que não se interrompem jamais. Resolvo esperar. Melhor ir até a cozinha, preparar algo pra comer e falar pro porteiro dar uma comida naquele garoto pode ser uma boa. “Ô, Zé, isso não é hora de som nessa altura. Fala praquele moleque que vou chamar a polícia. É meia-noite. Meia-noite”. O garoto não para. Parece surdo. Som alto desse jeito deve ser mesmo pra gente surda. E o porteiro? Será que não escutou o que eu disse? Vou ligar pra polícia. “Alô, eu queria fazer uma reclamação”. O garoto desliga o som. Eu, o telefone. Com a boca cheia, dou sorriso, canto dos lábios. É bom ser atendido de vez em quando. Sento. Entre um mastigar e outro, procuro ordenar as ideias olhando pra a página vazia. O programa Word não tem palavras. Penso no Bill Gates. Ficou milionário com esse tal de Windows. Não é hora de pensar nisso, eu sei. Mas vai dizer isso pra minha cabeça! O Bill logo se vai. Beatriz, Bia, minha personagem, vem e toma o lugar. Finalmente, consigo alinhavar algumas palavras, ainda que não escritas. É, é assim que o escritor faz, escreve na mente. Depois é que vai pro computador. Não demora, ignoro os barulhos da rua e mergulho nos barulhos confortantes das teclas preenchendo a página do Word. A vida da Bia, finalmente, começa a se tornar a vida de todos.

Eu, Beatriz e Angela já chegamos na livraria da travessa. Passem por lá. É só clicar.

http://www.travessa.com.br/EU_BEATRIZ_E_ANGELA/artigo/32999fe9-c304-46cd-aa34-564e36183e99

Um abraço do Newton.

Amigos leitores, a versão eletrônica de Eu, Beatriz e Angela está à venda na Gato Sabido.

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Eu, Beatriz e Angela é uma história de amor. Amor? Sim, é uma história de amor, de desespero, de desencontros e encontros implausíveis. Uma história que trata de solidão e de traição também.

Ficção e realidade se misturam já que o narrador protagonista é o escritor da história e nos insere, ora no mundo ficcional, ora no mundo real. E essa alternância cria o clima de suspense que captura o leitor até o surpreendente final.